A coragem da fé

Alguns historiadores dizem que ela chamava-se verônica, outros Berenice. Nascera em Cesareia de Filipe. Apesar de possuir vastos recursos financeiros, não lograva curar uma hemorragia ininterrupta que lhe retirava as forças físicas, conduzindo seu corpo a um processo de anemia aguda que a fazia declinar dia a dia. 

Procurou médicos, sacerdotes, exorcismos e tratamentos que lhe maltrataram ainda mais o organismo. vivia, igualmente, um drama emocional complexo, pois aquela também era uma época de preconceitos. Sua doença era tida como um estigma lhe imposto por deus, o que causava grande constrangimento a seus familiares, que dela se afastaram, deixando-a completamente só. 

Quando todas as possibilidades de cura se esgotaram, entrou, sismarenta, num processo de análise: dois caminhos entreviu. Poderia optar pela resignação sofredora e aguardar, passiva, a morte que, certamente, viria. 

Porém, apesar da fraqueza de seu corpo e das dores ininterruptas, era dona de uma vontade inquebrantável. Seu desejo de viver lhe apontava um outro caminho. ouvira falar dos ares saudáveis da próspera Cafarnaum, das caravanas que lá passavam e da existência de um estranho Rabi, que curava os doentes e anunciava a chegada de um novo reino. Em poucas semanas já buscava o Mestre nas areias do lago de Genesaré.

Naquela tarde ensolarada e quente, Jesus se encontrava cercado pela multidão. Ela, com o corpo quase vencido pela doença, consegue acercar-se dele, e, colocando em ação as poucas energias, em um movimento quase instintivo, puxa a túnica do Rabi.

— Quem tocou minhas vestes? pergunta o Senhor. 

— vês que a multidão te aperta e dizes “quem me tocou?”, respondem os discípulos. 

Os olhos do Cristo, no entanto, já buscavam aquela cuja fé abriu um canal de percepção dos fluidos curadores do Mestre. Emocionada, já sentindo a repercussão em seu cosmo orgânico da ação do Sublime amor, responde, reverente: 

— Fui eu, Senhor... 

— Filha, a tua fé te salvou, vai em paz e sê curada de teu mal.

Nas aflições da vida, na doença, na dor, precisamos movimentar as forças da fé para conectarmos com Jesus e recebermos as bênçãos do Seu amor. Tamanho é o poder que a fé ativa no ser humano que Allan Kardec reservou um capítulo no O Evangelho Segundo o Espiritismo (Cap. XIX) para uma análise acurada sobre essa potência da alma, que em gérmem todos trazemos. Cabe a cada um dinamizar e desenvolver. Se soubéssemos verdadeiramente a força que trazemos em nós e puséssemos a vontade à serviço dessa força, seríamos capazes de realizar prodígios que, em realidade não passam de um desenvolvimento da vontade humana.

Alerta-nos, porém, o Codificador, para não confundirmos a fé com presunção. A verdadeira fé segue os passos da humildade que deposita mais confiança em Deus do que em si próprio e vê-se como simples instrumento da vontade divina. vê-se o poder da fé de modo direto na ação magnética. Pela sua fé e desejo o homem atua no fluido universal, no qual todos estamos imersos, modifica-lhe as qualidades, dá-lhe uma impulsão. “Daí decorre que aquele que a um grande poder fluídico junta ardente fé, pode, só pela força da sua vontade dirigida para o bem, operar esses singulares fenômenos de cura...” (item 5). Não apenas no universo da saúde física, mas em todos os campos de nossa vida, podemos colocar a fé, com a racionalidade proposta pela Doutrina dos Espíritos, em ação.

Nosso pensamento é como um ímã que nos liga magneticamente a uma rede vibratória de eventos, pensamentos e energias semelhantes. Por isso aquilo em que nossa mente se detém atraímos para o nosso campo vibratório, mesmo que seja algo que criticamos e não desejamos para nós. Há pessoas que têm o costume de focar só no que não desejam e vivem constantemente, em pensamento, no local interdimensional de seus sofrimentos. Afundam em cogitações pessimistas sobre a vida, a doença, a solidão, a falta de recursos, jamais levando em consideração que Deus, o Criador de nossas vidas, está no leme. 

Somos imortais, portanto a doença é tão somente um caminho de educação e expurgo, que será vencido, aqui ou em outro plano existencial. Estamos sempre acompanhados, amparados, jamais sozinhos. Os recursos virão. Precisamos focar naquilo que verdadeiramente precisamos e desejamos e estabelecer um planejamento diário para alcançarmos nossa meta, colocando a fé em ação.

A mulher hemorroíssa era assim. O pensamento dela não estava no medo da doença, de morrer, no ressentimento que o abandono de seus entes queridos lhe poderia ter gerado. Não! Ela só pensava na busca de seu equilíbrio orgânico e em sua mente elaborava projetos de como alcançar o que desejava. 

Um exercício espiritual que trouxe uma mudança significativa em minha vida foi o proposto por St. Agostinho em resposta à pergunta 919 de O Livro dos Espíritos, na qual Allan Kardec solicita um meio prático e eficaz para se melhorar nessa vida e resistir ao arrastamento do mal. Convido você, amigo(a) querido(a), a ler na fonte as orientações que podem elevar nossa consciência a um novo nível de lucidez.

Sugere Agostinho que toda noite relembremos os acontecimentos do dia, interrogando-nos sobre o que fizemos, qual foi a nossa real intenção ao agirmos dessa ou daquela maneira, etc. Caso algum acontecimento não tenha se desenvolvido com a correção necessária, repita mentalmente a experiência da forma como considere melhor, recrie a situação em sua forma correta mentalmente e peça à Deus a oportunidade de desfazer o quanto antes o equívoco, que o mal se dissolva e a força do bem tudo normalize no momento adequado. A realidade exterior inicia dentro de nós!

Berenice ou Verônica, o que importa seu nome? o exemplo dessa corajosa mulher certamente nos inspirará para sempre!

Nada tema, não se deixe vencer pelo desânimo. observe seus pensamentos, palavras e atos a cada dia e faça suas escolhas na pauta do bem, inspirando-se em Jesus. Com Ele os problemas são meros desafios que ativam em nós as virtudes divinas. 

Texto retirado do livro "Vivências com Jesus", de Yasmin Madeira.
http://www.clubedearte.org/livros/livro-vivencias-com-jesus