O calvário

Não é muito comum as pessoas deterem-se em reflexões sobre o Calvário do Cristo. Ali nos deparamos com cenas tão terríveis e chocantes que preferimos nos deter na beleza de sua vida e ensinamentos. Nos momentos, porém, em que as dores e sofrimentos, nossos e dos nossos irmãos em humanidade, nos batem à porta da existência, o drama do Calvário nos atrai com um magnetismo diferente, como se o Cristo ali pusesse um código divino que, se compreendido, é capaz de rasgar as trevas e nos situar em uma dimensão celestial onde o sofrimento desaparece. 

Segundo estudiosos, a dor física tolhe a capacidade de raciocínio, limita a inspiração e o desenvolvimento de ideias complexas, permitindo que os instintos venham à tona. Já a dor emocional ativa a sensibilidade e permite que a criatividade se expresse para drenar a emoção perturbadora. Isso não ocorre, no entanto, com a ansiedade e a dor em níveis altos. Quando ocorrem, a memória fica obnublada e se fecha a capacidade de pensar, de logicar. Com o Mestre, porém, tudo á diferente. Se o comportamento do Cristo nos conduz sempre a um estado de amorosa perplexidade (Lucas 2:47), as Suas últimas horas na terra sintetizam, na prática, todo o Seu infinito amor. 

Ele, que nada tinha a expiar, no alto da cruz e no ápice da dor exclama: “Pai, perdoa-os por que eles não sabem o que fazem” (Lucas 23:34). Em meio a todo o cenário caótico, de sombra e de dor, Jesus evidencia a presença de alguém, que em tudo vive, que é Pai, Criador. Ali Ele é humilhado, provocado, seviciado, porém Sua mente se fixa na realidade da vida espiritual, onde encontramos as explicações das dores e sofrimentos da terra e uma fonte inesgotável de equilíbrio e paz. As dores físicas e emocionais não Lhe feriram a lógica e a consciência sempre desperta. 

Desfigurado pelas torturas, Ele já havia perdoado seus algozes porque compreendia as limitações daquelas consciências presas no entorpecimento das paixões. A compreensão dos limites do outro é uma chave inequívoca para o perdão, que brota espontâneo quando ela é acionada. Repleto de Vida Interior, não obstante as dores acerbas, sai de si mesmo, situando Sua consciência sempre no amor ao semelhante e encontra forças para acolher o criminoso arrependido, crucificado ao Seu lado, que lhe roga auxílio. Continuando em seu serviço de amor, mesmo crucificado ao madeiro, no auge do sofrimento, preocupa-se, com Maria, Sua mãe e a recomenda à João, o discípulo amado (João 19:27), em um conjunto poético de palavras que transbordam emoção.

Alma irmã, todos passamos por nosso Calvário particular. São ecos do passado e atendem às nossas necessidades educativas. O mundo exterior pode, nesses momentos, parecer sombrio por uma infinidade de razões, mas se você souber administrar as suas emoções mais tensas e organizar seus pensamentos, não perderá suas conexões com a esfera espiritual superior, de onde brotam a paz e a felicidade verdadeiras.

Identifique suas metas na presente existência, adequando-as à sua maturidade de agora, e, não se perca em lamentações ou recordações do mal que lhe fizeram. Organize seu dia para o atendimento do bem, recuse-se a comentar o mal e focalize os pensamentos em Deus. Não tema. todo o mal passa. três dias após o Calvário, já estava Ele, belo, resplandecente em luz!

Texto retirado do livro "Vivências com Jesus", de Yasmin Madeira
http://www.clubedearte.org/livros/livro-vivencias-com-jesus