Suicídio indireto

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Inevitável é a morte. Impossível estabelecer quando ela ocorrerá, fato final e inevitável que é de nossa viagem como encarnados. Fatores complexos, que procedem de existências anteriores e realizações atuais, postergam ou antecipam o instante da desencarnação, que pode ser por procedimentos fatais (tragédias, ou acidentes de qualquer natureza), ou mediante o curso de enfermidades de breve ou de larga duração. Contudo, indispensável é estarmos conscientes de que essa ocorrência terá lugar no momento adequado, nada obstante, sem assumir qualquer tipo de expressão de infelicidade ou de desgosto.

O suceder do tempo é instrumento de aproximação do momento libertador, porquanto a alma vivencia a maravilhosa experiência da carne, em luminosos processos evolutivos - que somente esta condição pode ofertar - mas envergando, contudo, o pesado fardo que a matéria representa. Quanto mais se vivencia o corpo, mais próxima se encontra a ocasião transformadora da sua estrutura. Eis por que se deve viver em harmonia em todos os instantes, acumulando experiências, adquirindo sabedoria, evitando ideações perturbadoras que sempre se transformam em conflitos e desequilíbrios.

Ao tomar conhecimento de algum diagnóstico afligente, para o qual inexiste terapia ou esta, quando aplicada, não é solucionadora, normal se faz, no indivíduo desprevenido, que irrompa um sentimento de ira, de revolta contra o mundo, as demais pessoas ou si mesmo, em mecanismo tormentoso de transferir culpas e responsabilidades, como se não viesse a ocorrer o mesmo drama além das suas fronteiras.

Portadores de problemas causados pela drogadição, pelo alcoolismo, pelo tabagismo, sempre quando se encontram sob o látego rigoroso dos processos degenerativos, consequência do vício infeliz, costumam justificar-se que já o abandonaram (quando, de fato, o fizeram) e não compreendem como ou porquê se encontram numa situação deplorável dessa natureza.

Não se querem dar conta de que o mecanismo de destruição foi de largo porte... e já realizou o seu doloroso mister. Desvincular-se do vício não proporciona recuperação dos tecidos gastos, daqueles que foram destruídos, dos danos causados de maneira irreversível... Apenas faculta alguma sobrevida assinalada pelo sofrimento, pela amargura que provém do arrependimento tardio.

Como se a transformação moral do indivíduo não fosse um processo edificante para ele mesmo, propõe “barganhas” com o Criador. Fica-lhe então a falsa ideia de que, havendo uma pseudo-modificação no comportamento moral e mental, através de promessas que certamente não serão cumpridas, advirá a alforria, e a morte não terá o seu curso natural.

Como consequência, porque não ocorre nenhuma transformação conforme esperava, o desânimo se apossa do paciente, que entra em depressão e mágoa, enquanto silenciando e fechando-se em angústia e autopiedade, como se essa atitude pudesse trazer-lhe conforto e libertação.

Toda a existência deve ser utilizada para vivenciar-se o processo de evolução, e não apenas para deixar-se arrastar pelas sensações do prazer em espetáculos de egoísmo incessante, longe da responsabilidade e dos deveres morais.

A vida é espiritual e para esse plano existencial devemos viver. O plano material, local de profundas lições e provações, serve para moldar-nos, espíritos que somos, na senda do aperfeiçoamento moral e intelectual, através de constantes reformas íntimas, pelo enfrentamento e pelas vitórias sobre as dificuldades e dores.

Embora não seja a intenção primeira do dependente químico, suas ações o levam a manter um “projeto de morte”, que poderá culminar, por vezes muito rapidamente, com o termo e o mal aproveitamento da encarnação que tudo tinha para ser vitoriosa e, assim, por vias indiretas, comete suicídio.

Baseado e com trechos do livro “Conflitos Existenciais” de Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo P. Franco.

Texto redigido por: 
GRUPO ESPÍRITA EURIPEDES BARSANULPHO
Oficina “Mário Barbosa”