À espera de um milagre

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A dependência química é uma doença... é progressiva, fatal... e incurável.

Progressiva porquê passa por sucessivas fases ascendentes (desde o flerte, quando manifesta-se o desejo do uso – por vezes por mera curiosidade - até o casamento obsessivo, quando o dependente deixa tudo na vida para manter um único objetivo: entorpecer-se – neste estágio ele é chamado “disfuncional”).

É considerada fatal não (somente) em razão de dilacerar gradualmente as funções orgânicas até o colapso fatal, mas também porquê, uma vez instalada, sua progressão é inevitável, embora a velocidade para tal seja variável de pessoa para pessoa.

Incurável, em razão da profundidade do comprometimento do corpo e da psique, fazendo com que a droga se torne a própria razão de ser do indivíduo e, muitas vezes, décadas após “estar limpo”, basta um trago de bebida alcoólica ou até uma tragada de um simples cigarro de tabaco comum para que se desperte um monstro adormecido e a retomada (recaída) ocorra de forma tão agressiva que o consumo pareça jamais ter sido interrompido, podendo ocorrer overdoses letais nestas ocasiões.

Muitos dependentes, contudo, alimentam duas perspectivas que podem custar caro... muito caro.

A primeira delas é a ilusão de que tem forças suficientes para, sozinho e por conta própria, conseguir livrar-se da dependência (“Paro quando eu quiser”). E, sim, é apenas uma mera ilusão. Basta o desafio de que assim proceda e abandone o vício para que procure de imediato uma desculpa que o permita prosseguir com o consumo ou para quê, no decorrer do tempo sob os sintomas da abstinência, realmente “caia em si” e perceba que lhe é uma tarefa já longe do alcance independente... precisará de muita vontade, de um querer intenso, profundo e contínuo... e de ajuda.

A segunda é muito característica dos familiares, esperançosos quanto à recuperação de seus amados, e dos dependentes que, percebendo o fracasso das tentativas autônomas, entregam-se à fé de que algo miraculoso e externo os libertará de seu jugo.

Embora a fé seja uma importantíssima força motriz do processo de recuperação, ela sozinha nada fará, pelo menos nestes casos.

Se nos perguntarmos se há uma força suprema, capaz curar todos os males do ser, a resposta seria, sob nossa ótica espírita, que sim.

Porém, curas milagrosas não permitiriam o cumprimento de uma Lei Divina: a Lei do Progresso, através da qual todas as criações e criaturas de Deus evoluem progressivamente e à custa de seus próprio esforço e com o tempero de muitas lágrimas e derrotas.

Mas alguns ainda poderiam citar, como exemplo, as curas do Cristo... Se nos dispusermos a avaliar o caso da mulher hemorroíssa, por exemplo (“_Quem me tocou?...” –  “Sei que alguém me tocou porquê de mim saiu virtude.” – Mc 5, 25-34), a mulher padecia já há anos (mais de uma década) e buscava incessantemente sua cura. Portanto, a doença havia já expurgado os equívocos cometidos e que haviam comprometido sua estrutura perispirítica e iniciado o processo doentio no corpo somático. Se considerarmos o teor total da passagem, sua fé foi fundamental para sua cura, mas sua VONTADE e seu querer, foram cruciais a ponto de levá-la a tentar de tudo para ver-se sã, inclusive o esforço para, em meio à multidão, simplesmente tocar as vestes do Mestre... e ser curada.

Contudo, como citado acima, devido ao imenso comprometimento do corpo somático e do espírito nos casos da drogadição, essa vontade, esse querer, esse auto-controle deve durar uma vida inteira, sob o constante e acercado risco de uma recaída.

Texto redigido por: 
GRUPO ESPÍRITA EURIPEDES BARSANULPHO
Oficina “Mário Barbosa”